segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Paradoxos da Democracia | Filosofia

 



Péricles (c.495/492-429 a.C.) , um dos mais importantes estadistas atenienses, certa vez definiu o governo de Atenas da seguinte maneira: 


"Nos chamam de democracia , pois a administração repousa nas mãos de muitos, não de poucos. [...] Nem mesmo a pobreza é empecilho , pois um homem pode trazer benefícios a sua cidade , não importa a obscuridade de sua condição. [...] Nossa cidade está aberta para o mundo, e nunca expulsamos um estrangeiro . Somos amantes da beleza , e embora simples em nossos gostos, cultivamos a mente sem a perda de nossa virilidade. Um cidadão ateniense não negligencia o Estado para cuidar de suas próprias coisas ; e mesmo aqueles atarefados nos negócios estão sempre bem informados a respeito da política." 

Tucidides. História da Guerra do Peloponeso . Livro II, item 37. 4. Ed. Brasília: Ed. da UnB; Instituto de Pesquisa e Relações Internacionais , 2001. P. 172-175.


Essas foram as palavras proferidas em homenagem aos soldados atenienses mortos em combate. Embora Péricles tenha exagerado na descrição das virtudes de sua cidade, seu discurso mostra de maneira muito clara porque Atenas é considerada um exemplo de democracia. O governo de Atenas era exercido por muitos, devido ao grande número de atenienses com direitos de cidadania. tais direitos implicavam uma participação direta dos cidadãos nos assuntos políticos. Mesmo os estrangeiros, que não tinham cidadania, sentindo-se relativamente à vontade em Atenas, em comparação com outras cidades-estados gregas. E, acima de tudo, o espírito ateniense caracterizava-se pelo seu amor às artes, à filosofia, enfim, por todas as atividades de ordem intelectualmente. A democracia , mesmo na antiga Atenas, também tinha seus adversário. Platão, por exemplos considerava perigoso dar voz às camadas da população que ele julgava inferiores. A administrar da pólis, na visão de Platão, deveria ser conduzida por especialistas em justiça social, verdadeiros "reis-filósofos". Porém, apesar algumas vozes discordantes, os valores democráticos são em geral e amplamente valorizados. Quando o presidente João Batista Figueiredo, o último do regime militar no Brasil, em seu discurso de posse em 1979, juro tornar o Brasil uma democracia, muitos reagiram com desconfiança, outros com esperança, mas poucos vinham a transição democrática como algo negativo. Quando forças estadunidenses bombardearam a Cidade de Bagdá em 2003, ou então secretário de defesa dos Estados Unidos Donald Rumfeld justificou a ação militar dizendo que ele traria a democracia ao Iraque. Com isso, Rumfeld visava mobilizar a opinião pública, que repudiava a violência da guerra, via a democracia como algo positivo. é claro que a transição para a democracia no Brasil não se completou no mandato do presidente Figueiredo. É é claro também o absurdo em querer implantar um governo democrático de maneira autoritária, como fez a coalizão militar liderada pelos Estados Unidos em 2003. Mesmo assim, esses exemplos mostram que a democracia é um regime de governo que tem aceitação por parte da maioria das pessoas no mundo ocidental contemporâneo. A democracia é um sistema de governo no qual todos os cidadãos de um estado estariam envolvidos nas decisões da administração pública, seja de forma direta ou por meio de representantes. Embora as formas como a democracia se manifesta na prática política possam variar bastante, podemos enumerar algumas características comuns. Os governos democráticos em geral promovem a igualdade perante a lei, a liberdade política e o estabelecimento de uma Constituição, um conjunto de leis que coloque limites a possibilidade de decisões arbitrárias Por parte dos governantes. A democracia, contudo, não deixa de ter seus paradoxos. Um deles é a necessidade de abertura para o debate e para a competição entre plataformas políticas diferentes e frequentemente em conflito com as outras. Em uma democracia, a competição política necessária e benéfica, mas até que ponto? Como discernir o momento em que o conflito se tornou excessivo, levando à instabilidade política? Um segundo paradoxo é a música de equilíbrio entre os poderes constituídos, os em uma democracia o poder não pode se concentrar em apenas uma instância, mas deve ser distribuído entre elas. No caso brasileiro, por exemplo, o poder político é dividido em Legislativo (que elabora as leis), Judiciário (que julga os casos de acordo com as leis) e Executivo (que faz cumprir a lei). Há ainda diferentes esferas de administração pública, como a Federal , a Estadual e a Municipal. Mas até que ponto essas divisões administrativas não criam empecilhos que atravancam as ações do Estado? Até que ponto a burocracia não compromete o poder e a eficiência do Estado, que são necessárias para as ações públicas visando ao bem comum ? Um terceiro paradoxo do respeito ao processo eleitoral. Para que um governo democrático tenha legitimidade ele precisa do apoio do eleitorado. Entretanto, há situações em que a solução de um problema implica medidas impopulares, cujos resultados só serão sentidos a longo prazo, muito além do mandato dos atuais governantes. Muitas vezes tais medidas podem mesmo ser interpretadas por grande parte da sociedade como razão para a queda de legitimidade de um governo . Diante da confusão dessa natureza , haverá aqueles que proponham como solução o estabelecimento de um governo autoritário. Entretanto, tendo em vista as atrocidades cometidas por regimes autoritários. na história recente, essa certamente não é uma boa ideia . Basta lembrar das graves violações de direitos humanos cometidas pelo regime nazista na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) , pela ditadura civil-militar no Brasil entre 1964 e 1985, pela ditadura militar na Guatemala de 1954 até 1996, pelo regime de apartheid na África do Sul de 1948 a 1994 para citar apenas alguns. Para o filósofo franco-argelino Jacques Ranciére, a democracia é essencialmente paradoxal. Um governo é bom porque é legítimo ou é legítimo porque é bom? O grande paradoxo da democracia , segundo esse pensador, é que a democracia deve ser entendida como um governo exercido pelo povo, mas, para que o governo possa governar , muitas vezes ele se vê no direito de reprimir manifestações democráticas que entende como "excessivamente revolucionárias". Assim, a democracia para Rancière é um poder que se deslegitima ao mesmo tempo em que se apresenta como legítimo, pois defende sua legitimidade com base na transparência administrativa e no consenso popular, mas não raro coloca limites da liberdade de expressão quando a ordem social se vê sob ameaça. Ainda para esse autor, a democracia, em tese, parte do princípio de que todos somos iguais, mas na prática estabelece a desigualdade, preocupando-se apenas estabelecer um padrão mínimo de conforto material para os mais pobres . Nas palavras de Rancière: 

"A reflexão moderna sobre a democracia te tendeu a representá-la à distância de si mesma, separada de sua verdade. Aqueles que mais alto se congratulam com seu usufruto reduzem-na de bom grado ao consenso sobre a ordem não igualitária mais adequada para fornecer aos menos favorecidos a sua parte suficiente de poder e bem-estar."

Ranciére, Jacques. Nas Margens do político. Lisboa: KKYM, 2014 . p. 47. 

Um dos exemplos que Rancière usa para demonstrar a persistência da desigualdade nas sociedades democráticas contemporâneas é a educação escolar. A escola na maioria das vezes tende a atribuir o sucesso ou fracasso do indivíduo às capacidades e ao empenho do aluno, mas os alunos de nível socioeconômico mais alto costumam a ter mais sucesso na carreira escolar e salários mais altos em suas carreiras profissionais. Será que os menos favorecidos economicamente também são os menos capazes e os menos empenhados? É claro que não. A educação , para Rancière , desmente que a ordem democrática seja igualitária como ela se afirma. Mas , se aceitarmos sua crítica à democracia , voltamos à questão anterior: A qual sistema político recorrer, uma vez que o autoritarismo não é uma opção ? O próprio Rancière responde: 


"A verdadeira participação é a desse sujeito imprevisível que hoje ocupa a rua, desse movimento que não provém senão da própria democracia. A garantia da permanência democrática não é a ocupação de todos os tempos mortos e espaços vazios pelas formas de participação ou do contrapoder; é a renovação dos atores e das formas das suas ações, é a possibilidade sempre em aberto de uma nova irrupção desse sujeito dado a eclipses. O controle da democracia não pode deixar de ser à sua imagem, versátil e intermitente , ou seja confiante. "

Rancière, Jacques. Nas margens do político. Lisboa. KKYM, 2014. P. 68. 


Para Rancière, portanto, a democracia é uma realidade dinâmica , e é nesse dinamismo que se abre a possibilidade para a justiça social.