domingo, 23 de janeiro de 2022

Maquiavel e o pensamento político moderno

 



Durante a Alta Idade Média (séculos V ao X) predominou na Europa um sistema e econômico, político e social denominado o feudalismo. A principal característica do sistema feudal era a fragmentação política e territorial. O continente europeu encontrava-se dividido em pequenas unidades territoriais, chamadas de feudos, cada qual administrada por um senhor feudal. Havia, é claro, soberanos que governavam grandes reinos, mas o poder desses monarcas muitas vezes era apenas nominal. Quem exercia o poder de fato eram os senhores feudais, em nível local. No início da idade moderna houve um progressivo fortalecimento do poder monárquico em algumas Nações europeias. Esse processo marcou o fim do feudalismo e o nascimento do estado moderno. Ao mesmo tempo em que o estado moderno brotava e se desenvolvia, alguns filósofos procuravam interpretar essa nova forma de instituição social. Um dos pioneiros no pensamento político moderno foi uma estadista italiano na época do renascimento chamado Nicolau Maquiavel. Maquiavel é frequentemente caracterizado como um pensador desprovido de princípios morais. O próprio termo "Maquiavel" é usado em relação a a pessoa que age de má fé, usando de meios imorais para alcançar seus objetivos. É desse autor o princípio de que "os fins justificam os meios", O que significa em muitos casos a legitimação de práticas imorais para se alcançar os objetivos propostos. Contudo, é necessário investigar mais atentamente o contexto político e social em que Maquiavel viveu para que possamos entender adequadamente o verdadeiro sentido e alcance desse princípio. Durante os séculos finais da idade média, a Itália teve um desenvolvimento econômico e cultural surpreendente. Nessa época, surgiram ali artistas e cientistas de renome, como Leonardo da Vinci (1452-1519), Michelangelo (1475-1564) , Rafael (1483-1520) , entre outros. Além disso, os mercadores dominavam as rotas do mar mediterrâneo em busca de especiarias no Oriente, as quais geravam altos lucros a burguesia italiana. No entanto, a partir do século XVI, podemos observar um nítido declínio da economia italiana ao mesmo tempo em que outras Nações europeias, como a Espanha e Portugal, tomavam a dianteira no comércio marítimo. Acrescia-se Ah isso a vulnerabilidade dos reinos italianos aos interesses e disputas dessas Nações. Maquiavel atribuir a isso o fato de que faltava a Itália um poder centralizado, que lhe conferir se unidade política, a exemplo do que ocorria com outras Nações europeias. Dito de outro modo, a Itália, para continuar se desenvolvendo , deveria assumir a forma de um Estado nacional moderno. Durante o período medieval, que haviam permanecido, em muitos casos, com o poder bastante limitado. Já que a instituição mais influente na época era a Igreja , esperava-se do rei as virtudes cristãs, como a caridade, a lealdade e a honestidade: Bia ao rei dar esmolas aos pobres, ir à missa e tratar a todos, amigos e inimigos , com lisura. Para Maquiavel, a moral cristã não era algo necessariamente ruim, ela tinha o seu valor. Contudo, para esse pensador, a moral cristã não seria adequada a um governante . Em sua obra intitulada O Príncipe, Maquiavel argumentava que em determinadas ocasiões o soberano é obrigado a mentira a roubar, a matar , a trair os amigos e a fazer alianças com os inimigos para consolidar o poder econômico. Com isso, ele sugeria a substituição da moral cristã por uma moral pagã, como a da Roma antiga , para a condução dos assuntos políticos . O objetivo último da política , segundo Maquiavel , seria o fornecimento do poder monárquico e, consequentemente , a consolidação do Estado. Sobre a lealdade , por exemplo, assim opina Maquiavel: 


"Logo, um senhor prudente não pode nem deve guardar sua palavras quando isso seja prejudicial aos seus interesses e quando desapareceram as causas que o levaram a empenhá-la. Se todos os homens fossem bons, este preceito seria mau; mas porque são mais e não observaram a sua fé a teu respeito, não há razão para que a cumpras para com eles. Jamais faltaram a um príncipe razões legítimas para justificar a sua quebra da palavra. Disto poder-se-ia dar inúmeros exemplos modernos, mostrar quantas pazes e quantas promessas foram tomadas irritada e vás pela infinidade dos príncipes; e aquele que com mais perfeição , soube agora como a raposa, saiu-se melhor. Mas é necessário saber bem disfarçar esta qualidade a ser grande simulador e disseminador: tão simples são os homens e de tal forma cedem às necessidades presentes, que aquele que engana sempre encontrará quem se deixe enganar. "

Maquiavel. O Príncipe. Disponível em: <http://www dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000052.pdf>. Acesso em 2 de Junho de 2016. 

É importante observar que Maquiavel não se preocupou em desenvolver uma teoria que explicasse o que é Estado, mas sim mostrar como os Estados se formam ou se desagregar . Desse modo, ele se coloca como um dos principais precursores do pensamento político moderno, propondo uma reflexão sobre dinâmica do Estado independente da moral e da religião . Como ele mesmo afirma: [...] sendo minha intenção escrever algo de útil para quem por tal se interesse, pareceu-me mais conveniente ir em busca da verdade extraída dos fatos e não à imaginação dos mesmos, pois muitos concederam repúblicas e principados jamais vistos ou conhecidos como tendo realmente existido. 

-Maquiavel . O Príncipe.