sábado, 5 de junho de 2021

Mobilização Popular | Ditadura Militar

Apesar da negativa em conceder o estado de sódio , a esquerda procurava vincular-se a Jango. Ofereceu-lhe apoio em troca da nomeação de Brizola como ministro da Fazenda e exigiu , por meio de manifestações, medidas mais arrojadas para conter a crise econômica e a ameaça de golpe por parte da direita. Em nenhum momento da história brasileira as pressões populares foram tão intensas. A política deixava de ser um privilégio do jogo parlamentar e absorvia as universidades, as escolas, as fábricas , os quartéis e as áreas rurais. O Brasil assistia a uma intensa mobilização sindical, que redundava num número crescente de greves de caráter político. Contando muitas vezes com o apoio tácito militares, tais movimentos acabaram por incendiar as camadas subalternos das Forças Armadas. No campo ocorria a formação de diversos sindicatos, cujas direções eram disputadas por grupos católicos de direita e esquerda , e pelo PCB, ainda na clandestinidade , reclamando a reforma agrária e o cumprimento das leis trabalhistas aprovadas no início de 1963. Mas o movimento dos trabalhadores rurais tinha nas temidas Ligas Camponesas o seu braço mais radical. Organizadas por Francisco Julião , em Pernambuco e na Paraíba, entre 1955 e 1963 , como forma de resistência dos pequenos agricultores e trabalhadores , as Ligas recorriam muitas vezes às armas contra os desmandos de latifundiários e defendiam uma reforma agrária radical. Por outro lado, estudantes divididos em diversos agrupamentos de esquerda defendiam uma aliança operário-estudantil-camponesa. Foi criada a Frente de Mobilização Popular (FMP) , que procurava congregar a UNE, a FPN, o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) , as Ligas Camponesas e os setores da esquerda católica , como a Juventude Operária Católica (JOC) e a Juventude Universitária Católica (JUC). À direita surgiu uma série de movimentos cujos objetivos eram frear o avanço das reivindicações populares, financiar agrupamentos e políticos de feições anticomunista e destituir Jango da presidência , fosse pelo recurso legal do Impeachment, fosse pelo golpe de Estado. O instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) e o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) desempenharam papéis fundamentais no financiamento de campanhas políticas parlamentares , executivas e sindicais, e de órgãos de imprensa e institutos de pesquisa e estudos que forneciam orientação ideológica e política aos empresários e latifundiários. Os governadores Magalhães Pinto e Carlos Lacerda (UDN) , Ildo Maneghetti (PSD) e Ademar de Barros (PSP) conspiração abertamente contra Jango. O clima era de confronto . Configurava-se, mais uma vez, um processo de radicalizações ideológicas. Nos primeiros meses de 1964 , o presidente iniciou uma clara aproximação com a esquerda. Não reprimida movimentos grevistas e ocupações de terras, regulamentara a Lei de Remessa de lucros ao exterior e propunha então a formação de uma frente política que congregasse desde o PSD até o PCB e capaz de implementar as polêmicas reformas com a revisão constitucional. A essa altura o PSD , apesar de não apoiar as tentativas udenistas de impeachment do presidente , já se distanciaram de qualquer articulação governamental. Sem apoio parlamentares Jango recorreria às massas populares como forma de pressão sobre deputados e senadores. No dia 13 de março , uma sexta-feira, o último ato da democracia populista pareceu sintonizar, como nenhum outro momento da nossa história, as reivindicações populares e o chefe da nação. De forma entusiástica e radical o presidente anunciou no Rio de Janeiro, num comício realizado na estação ferroviária Central do Brasil, perante uma ruidosa multidão , o decreto de encampação das terras às margens de rodovias e ferrovias para a realização da reforma agrária e prometeu uma série de outras medidas de impacto: tabelamento de aluguéis e uma Constituinte . Foi o Comício das Reformas. Procurando mobilizar as forças de esquerda e nelas apoiar-se, Jango lançou a definitiva cartada do regime populista. A incorporação das massas ao jogo político chegou ao seu clímax e tinha de garantir as profundas reformas sociais e institucionais, extrapolando o próprio Poder Legislativo . Mas a ação do presidente mobilizou também a oposição , levando à composição entre UDN e o PSD. Menos de uma semana após o comício das reformas , setores conservadores organizaram uma estrondosa manifestação contra o governo federal, reunindo , em São Paulo, mais de 250 mil pessoas na Marcha da Família com Deus pela Liberdade. As conspirações iniciadas nós primórdios do governo Jango foram precipitadas pelo levante dos marinheiros de 25 de março , cujos revoltosos foram anistiados pelo presidente. As fortes reações no meio militar à quebra da disciplina e ao desrespeito à hierarquia foram decisivas para a deflagração do movimento golpista. A hesitação de oficiais e políticos de centro ia sendo vencida pelo clima de radicalização política. Em 31 de março , o general Mourão Filho , de Minas Gerais , iniciou o deslocamento de tropas para o Estado da Guanabara. Em outras regiões do país seguiram-se movimentações de destacamentos militares contra o governo. Sem resistência popular ou militar, Jango foi deposto. No dia seguinte, milhares de pessoas saíram às ruas para saudar os revoltosos . Era o fim da República Populista. A UDN, finalmente, chegava ao poder.