sábado, 18 de junho de 2022

Expansionismo Marítimo

 

Reyesvalenciennes | Reprodução | 2021-2022

O expansionismo marítimo-comercial europeu, dos séculos XV/XVI, deve ser estendido como um elemento fundamental no processo de transição do Feudalismo ao Capitalismo. O expansionismo foi um dos fatores que possibilitaram aos europeus superar a crise econômica do século XIV. Razões do expansionismo encontram-se, portanto, nas condições determinadas por aquela crise: falta de metais preciosos para a cunhagem de moedas, diminuição da população devido a fome e a Peste Negra, falta de terra para o cultivo na Europa. Tornava-se necessária, assim, a incorporação ao domínio europeu de novas áreas produtoras de metais, além da ampliação das rotas comerciais. A formação dos Estados Nacionais é outro fator básico para se compreender o processo expansionista. Apenas um Estado centralizado teria condições de gerar recursos financeiros e humanos necessários a uma empresa de tal porte. A expansão europeia dependeu, também, de grandes modificações técnico-navais exemplificadas pela invenção da caravela, aperfeiçoamento da bússula, astrolábio, do quadrante e dos portulanos (cartas geográficas marítimas). Portugal, foi a nação pioneira no expansionismo. Os fatores mais significativos para explicar esse pioneirismo são:

a) A formação do Estado Nacional Português, no século XII, consolidando-se em 1383 com a Revolução de Avis, quando a burguesia lusa conseguiu elevar ao trono D. João de Avis, (rica família de Armadores). Identificados com os interesses da burguesia, os reis da dinastia de Avis impulsionaram a expansão:

b) A existência de uma poderosa e ambiciosa classe burguesa, que desenvolveu em Portugal em razão da participação ativa nas transações comercias que envolviam o comércio de especiarias. Portugal estava a meio caminho entre o comércio mediterrâneo e o que se desenvolvia nos mares Báltico e do Norte:

c) O progresso náutico mais intenso, devido à presença, na Escola de Sagres de um grande número de pessoas diretamente envolvidas com as atividades marítimas comerciais.

A expansão espanhola foi um pouco retardada devido à luta contra os muçulmanos, que se estendeu até 1492. Somente nesse ano consolidou-se o Estado Nacional Espanhol e se pôde iniciar o expansionismo, através da viagem de Cristóvão Colombo, cuja, ideia era atingir as "Índias" navegando para o ocidente, uma vez que estava convencido da esfericidade do planeta. A notícia da viagem de Colombo e de sua chegada a um território (pouco depois denominado América) trouxe preocupações à Coroa Portuguesa: poderiam as viagens espanholas atrapalhar  o projeto luso de atingir as Índias contornando a África? As dúvidas ficaram maiores quando o papa Alexandre VI resolveu estabelecer um meridiano a 200 léguas de Cabo Verde, para delimitar as terras que pertenciam à Espanha (Bula Inter Coetera, 1493). A Coroa Portuguesa pressionou a Espanha a se chegou a um Tratado, assinado na cidade de Tordesilhas (1494), transferindo-se o meridiano de 100 para 370 léguas a oeste de Cabo Verde. A expansão produziu inúmeras transformações, contribuindo para acelerar a transição feudalismo/capitalismo. Em síntese, essas transformações foram:

- As modificações no comércio europeu, que se constituíram em autêntica "Revolução Comercial", caracterizada pelos seguintes aspectos:
a) deslocamento do eixo econômico do Mediterrâneo para o Atlântico, que passa a ser a grande via de um comércio feito em escala mundial;
b) incorporação das áreas do continente americano e do litoral africano às rotas já tradicionais do comércio Europa-Ásia.
c) declínio econômico das repúblicas italianas, paralelamente à ascensão das potências mercantis atlânticas (Portugal, Espanha, Inglaterra, Holanda e França);
d) perda do monopólio do comércio de especiarias por parte dos italianos);
e) grande afluxo de metais preciosos da América a Europa, o que determinou a chamada "revolução dos preços do século XVI". Tal fenômeno se explica em função do baixíssimo custo de produção dos metais americanos (exercício com utilização do trabalho compulsório dos indígenas);
f) esse grande volume de metais que afluiu para a Europa possibilitou um grande acúmulo de capitais nas mãos da burguesia europeia.

- Fortalecimento dos Estados Nacionais Europeus que passaram a intervir de forma crescente na economia, através das práticas mercantilistas.
- Desenvolvimento do tráfico de escravos da África para a América, devido à organização da produção do Novo Mundo ter se baseado, fundamentalmente, no trabalho compulsório.
- Extermínio de grupos e nações indígenas na América, reflexo da montagem do Antigo Sistema Colonial;
- Europeização das áreas conquistadas, pela imposição de valores culturais e religiosos.